Quarta-feira, Novembro 25, 2009

Acima dos partidos e da luta partidária




O Presidente da República procedeu hoje a uma mini-remodelação em Belém. Quando se esperaria que Cavaco removesse definitivamente Fernando Lima, eis que Cavaco estraga com mimos o operacional da inventona das escutas.

Mas as surpresas não ficaram por aqui. O Presidente de todos os portugueses continua a recrutar os seus assessores no PSD. Agora, foi buscar Ana Zita Gomes para assessora de imprensa. Veja-se o que consta do curriculum¹ da jovem Ana Zita (cuja profissão é, segundo diz, “assessora”) e que faz da ex-deputada do PSD boa moeda:
    • Deputada à Assembleia da República;
    • Vereadora da Câmara Municipal de Lisboa (em substituição);
    • Secretária Geral da JSD;
    • Presidente do Congresso Nacional da JSD;
    • Directora de Informação da JSD;
    • Conselheira Nacional do PSD;
    • Membro da Direcção da Associação de Estudantes do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa.

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¹ Arquivo da Assembleia da República vasculhado pelo CC.

Asfixia democrática…

… ou o PS que domina, influencia, condiciona, tutela, manipula, adultera e asfixia a comunicação social em Portugal¹.

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¹ Descaradamente plagiado daqui.

Mudança de epígrafe

O CC terá dado um forte contributo para a reabilitação de Fernando Lima, ao ter posto em destaque a sua fidelidade de décadas a Cavaco: “O rei manda marchar, não manda chover”. Uma vez que ele acabou por ver reforçado o seu papel em Belém — “Fernando Lima passa a ser o 'vice-chefe da Casa Civil', o que na prática já era” —, já não há justificação para continuar a fazer lobbying pelo operacional da inventona de Belém.

Suponho que ninguém levará a mal que faça, agora, publicidade ao próprio CC, sublinhando que se trata de um blogue recomendado por José Pacheco Pereira.

O elogio ao trabalho, feito por Pacheco Pereira, é reconfortante, mais ainda por vir de alguém que não é seguramente um exemplo nessa matéria, quer em termos académicos, quer até em termos blogosféricos. E o CC, ao destacar o elogio que nos chega da Marmeleira, está também implicitamente a homenagear os seus próprios leitores, que não se limitam a um envio, a modos que burocrático, de fotografias do banco do jardim de Santo Amaro.

As mentes que nos "informam"

Mário Crespo introduz uma entrevista sobre o processo Casa Pia comparando-o ao Julgamento de Nuremberga.

Agora só falta a medalhita no 10 de Junho


E a decência?

O Pedro Lomba acha normal ser articulista num jornal que envolve em tramóias contra a liberdade de imprensa em artigos escritos noutro jornal. Pior, há gente, que não o Lomba, que acha isto normal.

O delito de opinião segundo Pacheco¹

            Tudo na longa manutenção de prisão preventiva de Mário Machado é estranho e aponta para razões puramente políticas, o que é inadmissível numa democracia.

Compreendendo embora o afecto do filósofo da Marmeleira pelo líder dos skinheads, a verdade é que Pacheco tem um problema complicado com a realidade.

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¹ Não lhe chamaria arquivo, mas memória.

A ignorância da apologia [2]

Não sei sequer se li os dois artigos de Vital Moreira a que Pedro Lomba se refere. Quando digo que o artigo de Lomba é intelectualmente desonesto é porque o seu autor, com o pretexto de dar uma canelada a Vital Moreira, procura meter no mesmo saco Paulo Portas e Sócrates.

Acontece que não resulta das recentes violações do segredo de justiça — partindo do pressuposto de que não estamos em presença de mais um mero caso de envenenamento da opinião pública — uma apreciação diferente do casal Moniz/Guedes da que Sócrates já dera na entrevista à RTP: é “evidente que o casal não era do agrado do primeiro-ministro José Sócrates”. Tratando-se de uma conversa privada entre duas pessoas que eram amigas, é de admitir que o primeiro-ministro não se tenha referido à Sr.ª Guedes nestes exactos termos: — Ó Armando, confesso humildemente que não tenho pela Sr.ª D. Manuela uma elevada estima pessoal.

O assunto morre aqui. Porque se trata de uma conversa privada. E porque a lei não permite que, sem autorização do presidente do Supremo Tribunal de Justiça, sejam escutados o presidente da República, o presidente da Assembleia da República e o primeiro-ministro.

Que tem isto tem a ver com o envolvimento de Paulo Portas no processo da Universidade Moderna? Para os mais desmemoriados, é bom recordar (por exemplo, aqui e aqui) como as peripécias do ex-ministro da Defesa foram convertidas, através de um artifício, num crime semipúblico, que, segundo o próprio magistrado do Ministério Público, que logo a seguir aparece como alto quadro dos CTT, "poderiam integrar, muito em abstracto, a prática do crime de infidelidade, previsto e punível pelo artigo 224 do Código Penal". Crime semipúblico que exigiria apresentação de queixa por parte dos sócios da Amostra, por acaso subalternos de Portas. Foi por isto que a coisa morreu, assim, ali (em termos jurídicos).

Não é preciso andar anos a fio a coçar-se pelos Passos Perdidos para perceber que o cu não tem nada a ver com as calças.

Terça-feira, Novembro 24, 2009

Todos aos abrigos nucleares



A SIC Notícias está a anunciar para as 23 horas um debate sobre economia com Bagão Felix e Campos e Cunha.

Como se prepara a opinião pública [2]

Era saudável que os jornalistas dissessem quem os tem utilizado para a difusão de informações falsas:
    "O CSM informa [de] que o juiz de instrução criminal de Aveiro António Costa Gomes comunicou que é falsa a notícia veiculada pela comunicação social no passado fim de semana, segundo a qual aquele juiz se teria recusado a cumprir a decisão do presidente do Supremo Tribunal de Justiça no âmbito do chamado processo Face Oculta", disse hoje aos jornalistas o vice-presidente do Conselho Superior da Magistratura (CSM), Ferreira Girão.

Da série "Frases que impõem respeito" [382]




    Acho que o PSD faz falta e que se deve ajudar.

A ignorância da apologia

Pedro Lomba escreve um artigo intelectualmente desonesto no Público. João Pedro Henriques, que se mostra fascinado com os pulos do Lomba, tinha obrigação, enquanto jornalista da “política”, de não se deixar ludibriar. Voltarei ao assunto mais tarde, porque agora é hora de trabalho.

Isto não vai acabar bem [Nova série – 17]



Paulo Querido



• Síntese das jornadas parlamentares do PSD:
    «“Não estamos aqui para cumprir os mínimos. Que ninguém espere isso de nós. Neste período tão difícil para o país, temos de fazer a diferença”, avisou [Aguiar Branco]. Nessa altura, na sala, estavam presentes cerca de metade dos deputados eleitos. De Manuela Ferreira Leite, nem rasto. A líder só chegaria pela hora do jantar (…).»
• O poder caiu na rua:
    Do Porto a Lisboa, de Setúbal a Braga, passando pela Guarda e por outras distritais, o país laranja quer apressar o enterro da testa-de-ferro de Pacheco na conspiração contra Menezes. Para o pequeno baronato, o PSD está “moribundo” (Marco António, que nos chega do Porto) ou mesmo “órfão” (Bruno Vitorino, a voz de Setúbal), sendo preciso “acordar Ferreira Leite e fazê-la ver o mal que estar a fazer ao partido”.
• A direita vista pela direita:
    ‘(…) o caos que se instalou no PSD – um partido sem liderança efectiva, movido por pequenos ódios e enrodilhado nas mais inverosímeis intrigas, que parece ter como principal objectivo transformar-se naquilo que já é: uma agremiação inútil de figuras menores, de ambições miúdas e de improváveis vaidades. Encontrar um chefe, no meio desta balbúrdia institucionalizada, é naturalmente um feito impossível de concretizar. Só por milagre. E mesmo assim!’

Desde que Marcelo deixou a Assembleia Municipal…

… acontece tudo lá na terra da avó Joaquina.

Viagens recentes ao Aspirina B (que faz quatro anos)

Percebe-se, ao ler o Aspirina B, por que o próximo alvo é o Val — e por que, afinal, a asfixia democrática existe mesmo.

Justiça à moda de Aveiro

"Ouvi dizer que". Um texto assinado por um jornalista (?) e editor (?) de um jornal (?). Um tratado de ética. E, já agora, de dedicação, de trabalho: "Espero a confirmação". Confirmações para quê? Está dito, está dito, não é Filipe?

Segunda-feira, Novembro 23, 2009

Isto não vai acabar bem [Nova série – 16]



Paulo Querido



Parece que não há um só assunto sobre o qual o PSD — leia-se, a elite — tenha uma posição única. A própria Dr.ª Manuela vacila entre as posições bushianas de Pacheco e os artifícios gelatinosos de Marcelo. Até quanto à data e aos preparativos para embalsamar a dita senhora, há divergências não negligenciáveis.

Perante o caos instalado, o pequeno baronato encheu-se de brios, saiu à rua e anda por aí à solta. Que ninguém se esqueça que Marco António, reeleito há dias com 98 por cento dos votos, é o lídimo chefe da maior e mais influente distrital do PSD. Isto deve querer dizer alguma coisa.

Coisas do outro mundo

Alienação total

Recebi vários e-mails de leitores, cujo envio agradeço, sobre o programa de Pacheco. Não o vi. A essa hora estava eu, totalmente alienado, agarrado à TVI a seguir as proezas de Nuno Assis, Custódio, João Alves… uma espécie de equipa de reservas do SCP. Bem, é que eu vi o Pacheco da semana passada e aquilo pareceu-me tudo tão deprimente: a falta de jeito, aquela caronha a transbordar do ecrã, o estilo campanha de dinamização cultural e acção cívica do MFA, o olhar fugidio que trai as palavras… Vamos aguardar a crítica de Eduardo Cintra Torres, que ele é que é crítico de TV.

Quem não tem cão caça com gato


Atrás de um grande homem existe sempre uma grande mulher



1. Não, João, o pequeno grande arquitecto já havia contado, há uns largos meses, esta estória, estava a campanha do Freeport no auge. E já então ele dizia que o caso se tinha passado há muito tempo.

2. O pequeno Saraiva recuperou-a agora, o que faz supor que estão a esgotar-se as munições da campanha. Mas houve uma pequena alteração no guião da estória: antes jurava a pés juntos que Vara era alheio à tramóia; agora, diz o contrário, o que revela a consistência da coisa.

3. Mas o que é verdadeiramente espantoso na entrevista do Correio da Manha é o pormenor de Saraiva afirmar que o Sol foi comprado por “angolanos” e o entrevistador não se dar ao trabalho de querer saber que raio de misteriosos “angolanos” são esses que suportam, na hora actual, a campanha negra.

Um ponto que é um nó cego



Na última edição da homilia que Balsemão lhe arranjou na SIC Notícias [o vídeo deve estar disponível por aqui nos próximos dias], Pacheco Pereira dedicou espaço nobre ao Câmara Corporativa.
A avaliar pelos erros de análise ao CC, deixem o PSD entregue ao homem e vão ver onde vão parar...

Café Helena, autocarro Matos

Helena Matos, metodicamente, continua a colecionar "casos" em que José Sócrates é "referido". Usar o verbo "referir" dá-lhe maior amplitude que utilizar o verbo, tão querido dos nossos media, "envolver", na sua forma reflexa.
Helena Matos é "o café" e "o autocarro" em que Manuela Ferreira Leite passa antes de ir para o Parlamento.

O Sol encoberto



Há uns meses - antes das Europeias e das Legislativas, a avaliar pelo enquadramento temporal do que é dito - o Sol, nas palavras do seu director [Correio da Manhã, 22.11.09], terá sido alvo de uma "tentativa de estrangulamento financeiro", por parte de "pessoas próximos do primeiro-ministro".
Isto vem o dizer agora o director do Sol.
Estranho é que, tendo à disposição as páginas do seu próprio jornal, e tendo a oportunidade de, com a publicação da história, tentar influenciar os dois actos eleitorais referidos, não o tenha feito. Muito estranho mesmo...

Um caso para a psicanálise

O João Gonçalves não linka o Câmara Corporativa... Agora, lá arranjou um modo de exorcizar essa sua auto-censura, sem pejo de se socorrer de um texto sem ponta por onde se lhe pegue. O João Gonçalves é um caso sério.

Domingo, Novembro 22, 2009

Da série "Frases que impõem respeito" [381]

    Há uma estranha coincidência entre os ritmos eleitoral e de investigação.
      João Correia, secretário de Estado da Justiça, ao DN, a propósito do processo Freeport

‘Validar escutas ilegais e não controlar o segredo de Justiça, isso sim, compromete a investigação’

• Fernanda Palma¹, O valor das escutas:
    A competência do presidente do Supremo abrange os casos em que as referidas entidades são só parceiros de conversa. Não há nenhuma razão para outra solução. A única particularidade resulta da impossibilidade de autorização prévia do presidente do Supremo quanto a escutas fortuitas. Mas persiste a sua competência para determinar a transcrição ou a destruição dos elementos que lhe devem remeter, à luz de uma norma especial que prevalece sobre as restantes.

    Em teoria, subsiste o problema de saber se, durante uma escuta ilegal, surgirem indícios da prática de um crime, eles podem ser utilizados como prova. Esse é um problema comum a qualquer escuta ilegal, ao qual se dá sempre uma resposta negativa, sob pena de se pactuar com atropelos de direitos fundamentais. Por isso, o artigo 125º do CPP determina que as provas que impliquem violação desses direitos sejam nulas e não possam ser utilizadas.

    Este regime vale para crimes que podem ser, em abstracto, objecto de escutas. Os conhecimentos fortuitos só podem ser utilizados se a escuta for legal, o crime a investigar a admitir e for indispensável para a prova, como dispõe o artigo 187º do CPP. Nada disto significa uma ponte para a impunidade, porque é sempre possível desencadear uma investigação contra quem é suspeito.

    Validar escutas ilegais e não controlar o segredo de Justiça, isso sim, compromete a investigação.
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¹ Professora Catedrática de Direito Penal.

Como se prepara a opinião pública


Imagem



• Ferreira Fernandes, Resolvido O Caso do Microfone Direccionado:
    Os estucadores estendem as suas invenções na talocha e com a colher atiram argamassa, só um bocadinho de cada vez, a ver se pega. Há-de pegar, porque eles sabem do que a casa gasta. Dez mil euros, microfones direccionais, raio de acção de 40 metros... - os jornalistas adoram pormenores. Isca engolida, há que manter as doses: dia sim, dia não, mais uma colherada. Nesta fase, um processo é como na maionese, não se pode parar. Bem servidos, há sempre jornalistas que comem tudo. Um dia, no caso da Joana, aquela menina algarvia que desapareceu, uma jornalista contou as últimas palavras da menina, atirada contra a parede... Em tribunal, o desaparecimento ficou nebuloso, só houve condenações porque houve confissões logo desmentidas, nada se soube e sabe do que aconteceu. Mas as últimas palavras da Joana ficaram preto no branco...

    Voltando ao meu processo. A 5 de Novembro, havia gravações de Vara a pedir dez mil euros. Hoje, sabe-se que nunca houve gravações. A minha sentença: há investigadores e/ou jornalistas mentirosos no Caso das Falsas Gravações de Vara dos Dez Mil Euros. São curtas as conclusões do meu processo, mas têm o mérito de se basearem em factos.

Leituras

• Pedro Marques Lopes, O admirável mundo dos novos revolucionários:
    Quem poderá confiar em gente que nada tem a propor senão o caos? Gente que acha que a luta política se pode basear numas conversetas privadas e em descobrir quem é amigo de quem. Gente que besunta a política de intriga e insultos.
• Vasco Pulido Valente, A agonia de um partido:
    Enquanto o país brama contra a justiça e a corrupção (os jornais de ontem só quase falavam disso), no centro do regime, o PSD apodrece. A derrota eleitoral e a permanência de Ferreira Leite não contribuíram, como era de prever, para uma transição regular e ordeira. Pelo contrário. A intriga ferve por toda a parte: nas distritais, no Parlamento, na direcção. Personagens completamente desconhecidas vieram à superfície na sopa turva de uma guerra civil interminável, enquanto diariamente se fazem e desfazem alianças sem programa, nem propósito e no Instituto Sá Carneiro (pobre Sá Carneiro) algumas criaturas de outro mundo se preparam para descobrir o qual é afinal a verdadeira "identidade" do partido. Não se consegue imaginar uma situação mais catastrófica.

A palavra aos leitores

De e-mail de Manuel T., de Santa Maria da Feira:
    '1 – Ainda os trabalhadores não tinham chegado para o plenário e já a eurodeputada distribuia comunicados: nada de aprovar o que quer que seja, a culpa é do governo e idem da câmara – mas a imprensa destacada para o local não viu nem ouviu e os trabalhadores não ligaram ...
    2 – O “jornal i” mais do que garante que Marcelo Rebelo de Sousa já aceitou ser líder do PSD a partir de Janeiro – mas nada disse da próxima prédica dominical do Professor, nem das questões que a “moderadora” poderá colocar sobre a tal grantia, nem do futuro propagandístico do candidato a expensas da RTP 1, ou seja, do erário público ...
    3 – Grande alarido matinal na diversa comunicação social a propósito de papelada que apareceu nas costas do Tribunal de Justiça de Lisboa, coisa visto isso ilegal que também transgride a confidencialidade de processos e direitos de pessoas – alarido que não deu para saber se havia gente a ver-se ao espelho, se era anedota para rir, se anda alguém a tratar-nos como idiotas desmiolados ...
    4 – Um dia depois de diversa comunicação social ter noticiado a acusação de que Oliveira e Costa iria ser alvo, o Ministério Público notificou o homem daquilo que já era sabido – e sobre a violação do segredo de justiça e a promiscuidade entre justiceiros e jornaleiros, nada...
    5 – Finalmente sabemos das verdadeiras razões de tanta acutilância jornalística: é de interesse público denunciar quem se recusa a pagar as dívidas de jornais e revistas, até porque malvadez de espécies que nasceram na província (que não abrange o distrito de Leiria onde nasceu António José Saraiva) e subiram ao poder em vez dos amigalhaços com quem se almoça e janta - espécies essas tão provincianas quanto, imagine-se, Álvaro Costa Leite, Américo Amorim, Belmiro de Azevedo, Henrique Neto, Ilídio Pinho, Ludgero Marques, Rui Nabeiro e tantos outros...
    6 – O arquitecto José António Saraiva, director do Sol, disse à TSF, pelas 13 horas e 59 minutos do passado dia 20, que um fulano próximo de Sórates se oferecera para ajudar ao pagamento das dívidas do jornal, contra o abafamento de noticiário lesivo do Primeiro-Ministro - cena de que absolveu Armando Vara ...
    O mesmo arquitecto, em entrevista concedida ao Correio da Manhã, disse que essa oferta fora feita por dois indivíduos e que o pagamento poderia passar pelo Armanda Vara que no BCP cuidava do crédito concedido ao mesmo jornal ...
    Que vale este duplo depoimento – que primeiro fala de um e depois de dois “negociantes”, que no princípio absolve Vara e depois incrimina Vara?
    Isto diz de pessoas? De carácter? De jornalismo?...
    '

Sábado, Novembro 21, 2009

Recados para dentro

Daniel Oliveira no Expresso: “Se José Sócrates está envolvido em algum ilícito terá de vir a ser investigado, julgado e, se for o caso, condenado. Se alguma coisa ficar politicamente evidente através de provas legítimas, deverá demitir-se. Aquilo a que eu, como cidadão, não estou disposto a ceder é à facilidade populista e à destruição de todas as garantias democráticas. Nenhum primeiro-ministro, por pior que seja, justifica tamanha irresponsabilidade.”

Isto é o Daniel, antes de mais, a enviar recados para o Bloco de Esquerda, que não parece querer dar-lhe ouvidos.

Baço



    A escolha de Herman Van Rompuy e Catherine Ashton não deveria surpreender ninguém que acompanhe a União nos últimos anos. Já de há muito tempo que os chefes de governo aceitam apenas como perfil dos cargos liderantes da União personalidades desconhecidas, baças, que em nenhuma circunstância têm força e autoridade política próprias para empalidecerem a sua igualmente frágil liderança política.
      Pacheco Pereira, na edição de hoje do Público

Leituras

• Daniel Proença de Carvalho, Agentes da lei fora da lei?:
    A verdade é que a polícia, o Ministério Público e o juiz de Instrução que participaram na intercepção, gravação e transcrição das escutas em que interveio o primeiro-ministro, agiram e continuam a agir na violação reiterada da Lei e contra os princípios do Estado de Direito. Deixemo-nos de rodriguinhos jurídicos com que alguns juristas disfarçam a sua militância política, citando a Lei: "Compete ao Presidente do Supremo Tribunal de Justiça... autorizar a intercepção, a gravação e a transcrição de conversações ou comunicações em que intervenham o Presidente da República, o presidente da Assembleia da República ou o primeiro-ministro e determinar a respectiva destruição..." (artigo 11º do Código de Processo Penal)

    Qualquer cidadão dotado de literacia mediana não terá dúvidas quanto ao sentido da lei, tão clara é a sua expressão: não é apenas a colocação em escuta dos telefones dos titulares dos órgãos de soberania visados na lei que exige autorização do presidente do STJ. Essa autorização é exigida quanto à "intercepção, gravação e transcrição" de conversas em que "intervenham" o Presidente da República, o presidente da Assembleia da República e o primeiro-ministro. E não se pense que só estes titulares de órgãos de soberania estão sujeitos a regras especiais. Estão-no também os próprios magistrados.

    Resulta, portanto, da Lei, que logo que uma conversa em que intervenha o primeiro-ministro seja interceptada, não pode a mesma ser mantida, sendo proibida a sua transcrição, sem autorização do presidente do Supremo. Sendo também este magistrado o único competente para apreciar em definitivo se a conversa contém prova de crime imputável ao primeiro-ministro. Ora, as autoridades que dirigem o Inquérito, usurpando a competência do presidente do Supremo, permitiram-se manter em seu poder escutas em que interveio o primeiro-ministro, durante vários meses, continuando a gravá-las, sem o consentimento da autoridade competente. A lei é também clara ao considerar como crime a intercepção, gravação ou mera tomada de conhecimento do conteúdo de conversas telefónicas sem consentimento. (artº 194º Nº 2 do Código Penal).

    Tarde e a más horas, as escutas chegaram ao PGR e ao presidente do Supremo; ambos consideraram que não existem indícios de crime e o segundo considerou-as nulas e ordenou a sua destruição. Ao que diz a comunicação social, a ordem do presidente do Supremo continua por cumprir. Não é isto a subversão do Estado de Direito? Polícias, agentes do M.P. e um juiz que actuam contra a lei e não cumprem uma decisão do presidente do Supremo?

    É claro que a prática destas ilegalidades conduziu a outro crime que diariamente é praticado na mais absoluta impunidade: o crime de violação do segredo de justiça. Os jornalistas cúmplices neste tipo de criminalidade já divulgaram alegados tópicos das conversas criminosamente guardadas e não tardará que apareçam as suas transcrições, obviamente por motivos de ordem política. O sistema de justiça afunda-se neste lamaçal arrastando na enxurrada a já pouca credibilidade do regime.

    Isto foi possível em resultado da opacidade do sistema de justiça. Todos nós conhecemos os actores políticos, os seus percursos, as ideias que professam, os seus comportamentos políticos; e, muito importante, exercem o poder com base no voto popular, que é a regra da democracia. Que sabemos nós dos detentores do poder judiciário? Por onde andaram, que ideias políticas professam? E a pergunta fatal: qual a raiz do seu poder soberano? Com que legitimidade o exercem? Esta é a questão crucial com que, mais dia, menos dia, teremos de confrontar-nos.
• Pedro Adão e Silva, Ausência de caminho?:
    (...) é necessário que nos libertemos dos que, enquanto se entretêm a repetir que o cenário é negro, não conseguem vislumbrar nenhum caminho.

Sexta-feira, Novembro 20, 2009

Os ficheiros da Marmeleira

O Rodrigo Moita de Deus estava à espera que Pacheco lhe perdoasse as graçolas de oportunidade?

A propósito de claustrofobia democrática¹

Impressionante o silêncio em torno desta situação.

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¹ Título do post do PAS sobre a mesma intolerável situação.

Notícias sobre o Face Oculta? É só dividir por dez

A "notícia":

Caução milionária para Penedos
Paulo Penedos, filho do presidente do conselho de administração da REN, alega que está na falência. A informação de que está afogado em dívidas foi dada pelo seu advogado, anteontem, ao juiz de instrução de Aveiro, depois de o Ministério Público ter proposto que lhe fosse aplicada uma caução de 250 mil euros.

A "realidade":

Paulo Penedos pode continuar a falar com o pai

O arguido do processo 'Face Oculta' Paulo Penedos pode continuar a falar com o pai, apesar dos dois estarem envolvidos no processo 'Face Oculta'. O Tribunal de Aveiro deu esta sexta-feira a conhecer as medidas de coacção do advogado.
Paulo Penedos está acusado de um crime de tráfico de influências e ficou sujeito às seguintes medidas de coacção: pagamento de uma caução de 25 mil euros, proibição de contactar com os restantes arguidos, à excepção do pai, José Penedos, proibição de contacar com funcionários da REN e de entrar nas instalações da referida empresa.

Quem se mete com as corporações, leva...

    O Sporting tem sido prejudicado. Os árbitros e as estruturas da arbitragem não perdoam ao Sporting ter denunciado o chamado “sistema”. Ninguém me pode tirar o sentimento de que existe uma atitude corporativa por parte dos árbitros em relação ao Sporting. Não sei se é uma reacção consciente ou não — espero que não —, mas que se sente isso no clube, sente.
      Entrevista de Miguel Ribeiro Telles à Tabu
ADENDA — Não é um post sobre a situação calamitosa do SCP. Ao contrário do que possa parecer, é uma nota sobre as corporações em geral, ou melhor, sobre a "atitude corporativa".

Estará a oposição distraída?

Em resultado do trabalho realizado no grande plano nacional de manipulação estatística levado a cabo pelo Governo, soube-se nos últimos dias que: Vamos lá criar uma comissão de inquérito para averiguar esta pouca vergonha.

Leituras

Pequeno contributo para futuras reportagens sobre os bastidores das pequenas e grandes empresas nacionais

As Torres do Colombo, do grupo Sonae, estão a ser construídas pela Mota Engil, "do" Jorge Coelho.

Quinta-feira, Novembro 19, 2009

Isto já não vai lá com debate



Pacheco Pereira está calmamente, na Quadratura do Círculo, a explicar como as regras do Estado de Direito são um empecilho ao debate político.

Críticos de TV zarolhos



O Telejornal de hoje começou com aquilo a que, na gíria televisiva, se chama "falsa abertura": mostrou a chegada a Lisboa da Selecção Nacional (1 minuto), tema a que regressaria mais tarde, e depois foi ao que interessa - o proposta de alteração do Orçamento do Estado. Na SIC e na TVI, a abertura foi com o OE.

Os censores de serviço estavam atentos - lá está a RTP a fazer o frete ao Governo!

Atentem na notícia que aqui se reproduz (DN, 13.11.09) - a RTP1 (descontemos a RTP2...) deu sensivelmente o mesmo tempo e o mesmo número de notícias que a SIC e a TVI acerca do caso Face Oculta (e é pena a notícia não contabilizar as aberturas). Tudo para agradar ao Governo, certamente.

Um exemplo, por favor

            “Artigo 377º-A
            Enriquecimento Ilícito

            1 - O titular de cargo político, o titular de alto cargo público ou o funcionário que (…) adquirir (…) ou bens de consumo, de valor manifestamente discrepante do seu rendimento declarado para efeitos fiscais e que não resultem de nenhum meio de aquisição lícito é punido com pena de prisão até 5 anos.
            2 – Se o enriquecimento previsto no número anterior, resultar de vantagens obtidas pela prática de crimes cometidos no exercício das suas funções públicas o agente será punido com pena de prisão de 2 a 8 anos.”
              Projecto de lei do BE (com a sintaxe intacta)



Um reconhecimento prévio: o anúncio de que o BE apresentara uma nova iniciativa sobre o crime de enriquecimento ilícito foi hábil. Conforme foi divulgado pelo Público, ficou a ideia de que o BE teria dedicado os últimos tempos a construir uma solução jurídica que configurasse este novo crime de forma a não violar o princípio da não inversão do ónus da prova.

Vai-se a ver e o projecto de lei agora apresentado (o PJL 43/XI) é exactamente o mesmo que fora apresentado pelo BE na anterior legislatura (o 769/X).

Adiante. Admitindo, porém, que todos os contributos para este debate são positivos, há, pelo menos, duas questões que carecem de resposta clara.

A primeira pergunta que moscarda o espírito é que ilícitos podem estar aqui incluídos? São os crimes que já constam do Código Penal? Se assim for, existe alguma vantagem nesta estranha criminalização de crimes, a que aqui se procede? Se o objectivo é o agravamento da pena, não bastaria alterar a moldura penal no respectivo artigo?

A única alternativa lógica é, portanto, haver meios ilícitos de enriquecer que não estejam abrangidos por nenhum dos crimes do código. Neste caso, agradecia-se um exemplo. É que, na ausência deste, a única interpretação possível e lógica é que, de facto, se consagra aqui a inversão do ónus da prova.

Aí sim, este artigo faz pleno sentido, ficando o acusado com o ónus de provar a licitude da aquisição e, não o conseguindo, automaticamente provada a sua ilicitude. Assim, sim, caberiam aqui mais casos para além dos crimes já previstos no código, entendimento que é confirmado pelo n.º 2, que admite que o enriquecimento ilícito possa não resultar da prática de crime.

É verdade que na exposição de motivos do projecto de lei se declara que cabe “ao Ministério Público, no âmbito dos seus poderes de investigação, o apuramento dos indícios necessários à acusação e a prova dos mesmos para efeitos de condenação”. No entanto, não estando este princípio vertido em qualquer passagem do articulado do diploma, isto mais não é do que “wishful thinking”.

E não ocorrendo a inversão do ónus da prova — como garante Francisco Louçã —, este artigo deixa pura s simplesmente de fazer sentido.

Pequena discordância

Para se invocar a presunção de inocência, Ricardo, seria preciso que o primeiro-ministro fosse arguido. Como se sabe, Sócrates não é arguido nem suspeito de nada. De nada. Aliás, convém recordar que as suas conversas pessoais com Vara não têm sequer nada a ver com o processo Face Oculta, de acordo com o que foi noticiado na sequência das violações cirúrgicas do segredo de justiça.

Tunhas, o infundado e modesto filósofo

Tunhas, o filósofo malsão, tem uma proposta deletéria: que se demita o primeiro-ministro.
Porquê?
Por causa das suspeitas "fundadas ou infundadas". Notem bem: "fundadas ou infundadas".
Um espanto!

Viagens na Minha Terra

Querem ver que, por este andar, a Pátria ainda tem salvação?



A OCDE reviu hoje em alta o crescimento da economia portuguesa, apontando para uma recessão de menor dimensão em 2009 (-2,8%) e um crescimento mais acentuado no próximo ano, com o PIB a crescer 0,8% em 2010.
[Jornal de Negócios, 19.11.09]

Quarta-feira, Novembro 18, 2009

Heraclito, Manuel da Costa Andrade e as muralhas da cidade

Num longo texto longamente mastigado, Manuel da Costa Andrade afirma, na edição de hoje do Público, que “uma vez recebidas as certidões ou cópias, falece àquelas superiores autoridades judiciárias, e nomeadamente ao presidente do STJ, legitimidade e competência para questionar a validade de escutas que, a seu tempo, foram validamente concebidas”.

Como sempre, Manuel da Costa Andrade invoca a sua qualidade de professor universitário, jura a sua honestidade e isenção intelectual e cita Heraclito — devemos bater-nos pela lei como pelas muralhas da cidade.

Vejamos então quais são as “muralhas da cidade”.

Segundo o artigo 11.º do Código de Processo Penal (CPP), “[c]ompete ao Presidente do Supremo Tribunal de Justiça (…) [a]utorizar a intercepção, a gravação e a transcrição de conversações ou comunicações em que intervenham o Presidente da República, o Presidente da Assembleia da República ou o Primeiro-Ministro e determinar a respectiva destruição (…)”.

Estas muralhas da cidade foram construídas pela Assembleia da República, à qual assiste toda a legitimidade democrática, independentemente da opinião que Manuel da Costa Andrade tenha sobre os deputados, sobre o escrutínio directo e secreto e a qualidade das leis. O único aríete que pode derrubar esta muralha é a Constituição da República, produto ainda mais relevante da vontade de um povo democraticamente expressa. Ora, nem Manuel da Costa Andrade, nem nenhum dos comentadores que, afanosamente, procuram argumentos para anular o disposto no artigo 11.º do CPP conseguiram engendrar um só argumento que seja a favor da inconstitucionalidade desta norma.

Todos sabem que este regime não serve para favorecer altas entidades que sejam suspeitas de crime. Serve para garantir a separação de poderes e preservar matérias de Estado. Por isso, abrange todas as conversações em que intervenham os titulares daqueles órgãos de soberania.

É verdade que pode haver escutas inopinadas e aí não é possível ser dada uma autorização prévia para a interceptação ou a gravação. Mas, quando isso suceder, deve haver uma comunicação imediata ao presidente do Supremo Tribunal de Justiça (STJ), ao qual incumbe determinar a transcrição ou a destruição das conversações. É isto que diz a lei, que devemos defender como as muralhas da cidade.

O que diz Costa Andrade esvaziaria completamente este regime. Na sua afirmação, há, desde logo, uma petição de princípio. Diz ele que não se pode questionar a validade das escutas que foram validamente concebidas. Costa Andrade utiliza uma expressão ambígua de propósito (“concebidas” quer dizer o quê?) e incorre num truísmo: ninguém pode invalidar escutas válidas.

Porém, o que está em causa é saber se as escutas foram “concebidas” validamente. Se a lei tivesse sido cumprida, logo que foi interceptada uma conversação do primeiro-ministro, deveria ela ter sido enviada ao presidente do STJ, para este ordenar a sua transcrição ou a destruição. Contudo, esta obrigação legal foi ignorada com soberana indiferença.

Manuel da Costa Andrade aplaude esta destruição das muralhas da cidade, apesar da sua erudita citação.

Efeito esquadra

Vivem-se tempos políticos estranhos em que parece que a criação do crime de enriquecimento ilícito constitui a panaceia para os males da corrupção que, efectivamente, corroem os alicerces da nossa sociedade. Qualquer iniciativa com o nome de “crime do enriquecimento ilícito” é suficiente para a excitação geral, que nisso quer ver o prenúncio da erradicação deste fenómeno. Não há, por muito que nos custe, leis mágicas que façam aquilo que só uma mudança cultural pode conseguir: a interiorização pelos cidadãos da que as práticas que consubstanciam os crimes de corrupção são reprováveis.

Infelizmente, é uma luta de paciência. E na qual, paradoxalmente, estes casos mediáticos de corrupção podem ter um efeito altamente pedagógico, concorrendo para a formação de um juízo colectivo de censurabilidade de tais actos. Paradoxal, também, porquanto estes casos, que surgem também devido a uma maior maturidade da nossa justiça e, sobretudo, devido ao reforço dos meios ao serviço deste combate, acabam por dar visibilidade a estes crimes.

Num país historicamente complacente com a cunha e a “ajudazinha”, os casos de corrupção que começam, finalmente, a chegar aos tribunais contribuem para a percepção de que a corrupção está a aumentar, quando, na realidade, está é a ser mais eficazmente combatida. É o chamado “efeito esquadra”: crie-se uma esquadra num local que não a tinha e o resultado é o aumento das denúncias de crime.

É isto que explica que a percepção das pessoas relativamente a este fenómeno tenha, segundo o ranking da Transparency International (ontem divulgado), aumentado. Conforme é, aliás, explicado pela própria Transparency International relativamente ao ranking do ano transacto.

Leituras

• João Pinto e Castro, Como fazer o Estado trabalhar mesmo mal:
    Na segunda metade dos anos 80, teve início um processo de progressivo esvaziamento dos departamentos de estudos e planeamento de diversos ministérios. Há que reconhecer uma certa dose de racionalidade na decisão. Nem o Estado precisa de imponentes núcleos de técnicos de variadas especialidades cuja utilização oscila muito de ano para ano, nem tem condições para remunerar adequadamente os mais qualificados dentre eles. Compreende-se, por isso, que recorra com regularidade aos serviços de centros de investigação universitários, empresas de consultoria ou gabinetes de projectos.

    O problema é que essa racionalização foi demasiado longe, transformada num dogma inquestionável que perdeu de vista o seu propósito inicial. De modo que, hoje em dia, o Estado encontra-se destituído de competências técnicas efectivas em áreas cada vez mais numerosas.

    Esta evolução foi propiciada por doutrinas, tão pacóvias como nefastas, segundo as quais o Estado não necessita de definir estratégias próprias de actuação, limitando-se a responder às solicitações da sociedade civil. O resultado desse liberalismo mal assimilado está à vista de todos: muitas e relevantes instituições estatais carecem de um pensamento próprio acerca da área em que actuam, limitando-se, por isso, a prosseguir políticas e a distribuir recursos sem outro critério visível que não seja o de agradar às associações empresariais e aos lóbis mais influentes.

    Os últimos anos têm vindo a comprovar, de modo cada vez mais evidente, os prejuízos resultantes da desvalorização das competências técnicas do Estado. Destacarei três razões por que este estado de coisas não pode continuar.

Terça-feira, Novembro 17, 2009

Alguns disparates [2]

A bem da verdade se diga que o Dr. Mata não tem o exclusivo do disparate. Também o Prof. Marcelo expôs uma teoria curiosa na homilia dominical.

Apesar de reconhecer a irrelevância das conversas do primeiro-ministro e de sublinhar que se trata de um disparate a referência a atentado contra o Estado de direito, Marcelo veio defender que o procurador-geral da República poderia ter constituído arguido o primeiro-ministro. “Esqueceu-se” o professor de que o Código de Processo Penal exige, no artigo 58.º, que haja “suspeita fundada da prática de crime” para se proceder à constituição de arguido. Se o próprio Marcelo acha que não há crime, a sua conclusão é contraditória…

Fontes atropeladas

Ana Sá Lopes não vai com certeza deixar que tirem o tapete à Vanessa.

Alguns disparates [1]

Como seria de esperar, o processo Face Oculta trouxe à liça alguns pseudo-especialistas em direito criminal. Saragoça da Mata, um advogado que aparece com frequência na SIC-N, veio dizer que o juiz que pratica o primeiro acto em relação a uma escuta tem de praticar todos os actos seguintes.

Assim, Noronha do Nascimento seria incompetente para ordenar a transcrição ou a destruição das escutas que envolvam o primeiro-ministro, porque não as autorizara. Esta teoria disparatada, afirmada com a ciência dos doutores, não tem nenhum apoio do artigo 11.º do código de Processo Penal e ignora completamente o objectivo desta norma.

Além do mais, premiaria os casos de violação da lei, em que o juiz diferente do presidente do Supremo Tribunal de Justiça (STJ), ao contrário do que manda o artigo 11.º, autorizasse uma escuta em que interviesse o presidente da República, o presidente da Assembleia da República ou o primeiro-ministro. É que, a partir dessa ilegalidade, o presidente do STJ ficaria impossibilitado de intervir! Esta gente não se prepara antes de entrar num estúdio de televisão?

Leituras

• Mário Soares, A 'Face Oculta'... da justiça:
    Leia-se a comunicação social do fim-de-semana, e oiçam-se os comentadores das rádios e televisões, algumas vezes escolhidos a dedo, e compreender-se-á que não se trata de uma "operação" casual - ou muito menos ainda de "fugas" fortuitas ou ocasionais - mas sim de "fugas" organizadas estrategicamente, em momentos específicos, com objectivos claros de desprestigiar a justiça, certos políticos e enfraquecer e desacreditar o sistema democrático, em que alguns outros políticos, inconscientemente, se intrometem, com fins imediatistas e oportunistas, tentando visar os seus adversários de momento.
• Pedro Adão e Silva, Cepticismo, por favor:
    Paulo Pena sugere que aquilo a que assistimos em Portugal não são verdadeiras investigações jornalísticas, mas, sim, "reportagens sobre investigações". A diferença é que, neste último caso, o relato jornalístico depende de uma fuga de informação da investigação oficial, após a qual o jornalista "oferece" à sua fonte um espaço para a difusão de alegações ou insinuações, sem qualquer responsabilização pública. Este método não é, em si, errado. Contudo, tem muitos riscos associados. À cabeça, ao jornalista é dada a conhecer apenas uma parte da investigação, pelo que a possibilidade de ser manipulado pela fonte é grande. Não é preciso ter grande memória para saber que os exemplos recentes de manipulação de jornalistas pelas fontes, em casos mediáticos, são muitos.
• Vital Moreira, Incontinência política (Público):
    (…) os que fizeram do caso Freeport uma tentativa de assassínio político de José Sócrates e que viram baldados os seus esforços - nem ele foi indiciado por qualquer crime nem perdeu as eleições, como eles pretendiam - desejam agora apanhar esta inesperada "boleia" para reeditarem mais uma campanha de perseguição e de conspiração política.

    Infelizmente, não estão sós. A ainda líder do PSD resolveu fazer mais uma das suas exibições de mesquinhez política, exigindo ao primeiro-ministro que esclareça o conteúdo das escutas de que foi vítima. Trata-se de um pedido sem nenhum sentido. José Sócrates não tem nenhum dever de revelar nem de esclarecer o conteúdo das conversas ilicitamente gravadas, ainda por cima sem nenhuma relevância penal. Os líderes políticos da oposição deveriam revelar maior sentido de Estado e distanciamento político, em vez de aproveitarem demagogicamente a primeira oportunidade que lhes aparece de flagelarem o primeiro-ministro, ainda por cima prevalecendo-se da intolerável violação do direito das pessoas às suas conversas privadas.

    Por sua vez, o Presidente da República manifestou a sua "preocupação" com a situação, sem esclarecer porém qual o objecto e motivo da sua inquietação e deixando deliberadamente pairar dúvidas sobre a questão. O Presidente deveria ter identificado explicitamente a sua preocupação com o escândalo do sistemático desprezo pelo segredo de justiça, que este caso vem mais uma vez pôr em relevo, e com a precipitada condenação pública do primeiro-ministro, apesar de contra ele não existir até ao momento nenhum indício de ilícito penal.

Quem sabe, sabe

Se Inês Serra Lopes o diz…

Fernando Lima: “A notícia da minha morte foi claramente exagerada”




A palavra aos leitores

De e-mail de Manuel T., de Santa Maria da Feira:
    '1 - Entre o sábado e o domingo, diversos especialistas de Direito permitiram-me saber o que nunca me tinha passado pela cabeça: eu, depois de violado o meu direito à privacidade e de essa violação ter sido considerada como ilegal, tenho o direito de, daqui a uns anos, aceder às escutas que entretanto me foram feitas; escutas que depois ficarão à guarda de quem as fez ilegalmente e violou o meu direito à privacidade…
    Isto não será a costumeira e conjuntural “interpretação da lei”, para adequar a prática judiciária a interesses político-partidários?
    2 – Marcelo Rebelo de Sousa fez saber, no domingo à noite, que Sócrates devia estar grato a quem violou o segredo de justiça – por não o ter feito antes das eleições.
    Isto é de Professor de Direito?
    3 – Segunda-feira à noite, o Mário Crespo do costume, que até tinha escrito um artigo para o JN, chama jornalista especializado em ética e deontologia para comentar ao redor da “face oculta”. Azar: o convidado fala de honra, do jornalista que não pode ser mero reprodutor das fontes, de bom senso, do jornalismo obrigado a duvidar da bondade de tudo quanto colocam nas suas mãos, do direito que o jornalista tem que dar ao seu leitor-ouvinte-telespectador de ele mesmo pensar pela sua própria cabeça, do mau jornalismo que anda para aí… E a cada insistência do Crespo, o convidado repete, esclarecendo, simplificando…
    Não será possível repetir ene vezes esse “extraordinário momento de televisão?”…
    '

Segunda-feira, Novembro 16, 2009

O saber empírico do Prof. Marcelo

Este post levou-me a rever a prédica dominical do Prof. Marcelo¹. Revelando a mais fina argúcia, Marcelo afirmou que não foi a equipa local que investigou o processo Face Oculta a violar o segredo de justiça. O comentador sabe-o porque só começou a haver violações do segredo de justiça depois de o processo vir para Lisboa.

Esta tese é digna do empirismo mais primário. É como se uma pessoa dissesse que chove por se fazer noite, depois de ter assistido a algumas chuvadas nocturnas.

Marcelo poderia ter compreendido a verdade se se tivesse esforçado um bocadinho. Segundo dizem, inteligência não lhe falta. A verdade é que quem violou o segredo de justiça esperou que elementos do processo chegassem a Lisboa, para disfarçar o seu papel. Mas o papel não é fácil de disfarçar, atendendo a que toda a gente conhece as ligações estreitas entre um responsável pela investigação e um jornalista de um diário de grande expansão. E da fama já não se livram.

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¹ Voltar a ver a prédica dominical permitiu confirmar outras escorregadelas do político/comentador/jurisconsulto/professor. Amanhã volto ao assunto.

Leituras

• António Costa, Vamos voltar a discutir o país?:
    Em vez de declarações públicas avulsas e à porta de entrada de um qualquer acontecimento, Pinto Monteiro fez divulgar um comunicado oficial no qual esclarece os dois pontos essenciais das escutas da Face Oculta que ‘apanharam' José Sócrates: Em primeiro lugar, não há matéria criminal em causa, em segundo lugar, o Supremo Tribunal de Justiça considera que as escutas são ilegais. Dito isto, podemos voltar a discutir o país?
• Ferreira Fernandes, A minha receita de milho:
    O milho atirado ao pombos (eu sei que já usei a imagem, mas não conheço bicho mais estúpido que pombos, e é de estúpidos que se trata) não alimenta a compreensão, só acresce a fé. Quem já não gosta de A, com um grão de escuta, aqui, outro grão de frase no processo, ali, confirma que tem mesmo razão sobre o A. Ora eu não gosto que me atirem grãos, não gosto de grão a grão. Não depenico, escolho o milho de leite, na maçaroca. E leva-me tempo a saborear. Não é esse o ritmo dos atiradores de grãos? Paciência, é o meu.

Domingo, Novembro 15, 2009

Os inimigos do Estado de direito




1. Reza uma norma aprovada pela Assembleia da República (AR) e consensualizada no Pacto sobre a Justiça que cabe ao presidente do Supremo Tribunal de Justiça (STJ) autorizar a intercepção, a gravação e a transcrição de conversações telefónicas em que intervenham o presidente da República, o presidente da AR e o primeiro-ministro, bem como a respectiva destruição.

Norma mais clara não há. Todas as competências são do presidente do STJ e basta que nas conversações intervenha um dos três titulares de órgãos de soberania referidos, mesmo que não seja suspeito ou arguido.

2. A primeira fábula contada por todos aqueles que defendem uma visão populista e justicialista é que esta norma blinda o acesso às conversações daquelas altas figuras do Estado, criando uma imunidade. Nada mais falso. Todas as conversas telefónicas estão sujeitas pela Constituição da República a autorização do juiz (artigo 34.º, n.º 4, e artigo 32.º, n.º 4). A única especificidade, neste caso, é que não é um juiz qualquer a intervir.

O mesmo se passa em sede de instrução e julgamento desses titulares de órgãos de soberania e dos próprios magistrados, que compete aos tribunais superiores — artigos 11.º e 12.º do Código de Processo Penal (CPP).

A absurda teoria da blindagem só teria sentido se o presidente do STJ fosse um delinquente que não oferecesse quaisquer garantias. Mas não é esse o caso. O presidente do STJ, que é por inerência presidente do Conselho Superior da Magistratura, é eleito pelos seus pares e faz parte obrigatoriamente do STJ, órgão de topo dos tribunais judiciais. É o primeiro entre os seus pares e é mesmo por isso que lhe é atribuída a já referida competência.

3. Os populistas e justicialistas gostam também de utilizar um outro argumento, aparentemente irrepreensível. Se o operário, o empregado de escritório ou a assistente administrativa podem ser escutados por autorização de um juiz qualquer, por que razão só podem ser escutados por autorização do presidente do STJ o presidente da República, o presidente da AR e o primeiro-ministro? Haveria aqui uma desigualdade inaceitável num regime democrático…

É óbvio que este argumento não procede. A atribuição da competência ao presidente do STJ visa, neste caso, preservar conversas dos mais altos responsáveis do país, que podem versar matérias sujeitas a segredo do Estado, de elevado melindre diplomático ou até reservadas na perspectiva do bom funcionamento e da boa cooperação entre órgãos de soberania.

4. Mas compreendida a razão de ser da norma aprovada pelo Parlamento, um último argumento tem sido esgrimido. Pela sua própria natureza, as conversações em que intervenham de forma inopinada o presidente da República, o presidente da AR e o primeiro-ministro não podem ser objecto de autorização prévia.

Se um arguido fala, por acaso, com um desses titulares de cargos públicos, é impossível a quem dirige a investigação adivinhá-lo e pedir autorização prévia ao presidente do STJ. Este argumento é verdadeiro, mas está a ser usado com manifesta má-fé no caso que hoje se nos oferece através dos media.

O argumento valeria apenas para explicar que as primeiras escutas em que interviesse o primeiro-ministro não podiam ser objecto de autorização prévia. O artigo 11.º do CPP fala em autorização para interceptar, gravar e transcrever. Por isso, as primeiras gravações deveriam ter sido imediatamente entregues ao presidente do STJ, a fim de ele se pronunciar sobre se elas deveriam ser conservadas, transcritas ou destruídas. Depois das primeiras intercepções, caberia, sem dúvida, ao presidente do STJ pronunciar-se sobre a continuidade das escutas.

Esta é conclusão que se impõe, dando por certo que as intercepções se prolongaram por muitos meses, cobriram variadíssimas conversações do primeiro-ministro e só depois foram remetidas ao procurador-geral da República e, através deste, ao presidente do STJ.

5. Para quem aprecia teorias conspirativas, a história pode ter sido desenrolada assim: quando “alguém” verificou que estavam a ser interceptadas conversas do primeiro-ministro com regularidade, achou que deveria manter-se “caladinho” para ver se aparecia alguma “matéria mais apetitosa”.

E para quem goste de teorias ainda mais conspirativas, pode ter havido quem tenha percebido que um dos arguidos tinha um relacionamento privilegiado com o primeiro-ministro e esse critério tenha sido determinante para a escolha do alvo das escutas.

6. Mas mesmo sem necessidade de teorias conspirativas, há uma conclusão irrecusável: foi violado o artigo 11.º do CPP. E para tornar essa violação plenamente eficaz, foi violado, reiterada e ostensivamente, o segredo de justiça.

Através da violação do segredo de justiça, está-se a atacar, mais uma vez, o primeiro-ministro e secretário-geral do PS, em relação ao qual basta lembrar que não é arguido em processo algum nem está indiciado de envolvimento no processo Face Oculta.

É contra tudo isto que todos os democratas e cidadãos amantes do Estado de direito se devem insurgir. Ninguém está acima da lei e não podemos começar a achar normal que a lei seja violada em matérias tão sensíveis como as escutas e o segredo de justiça, com a agravante de as violações provirem de alguns dos que têm especiais responsabilidades em fazer cumprir a lei.

No fundo, o que distingue o Estado de direito de um bando de salteadores é precisamente o primado da lei — seja a lei que pune a corrupção, seja a lei que regula o processo penal.

As fontes negras (2)

Pacheco Pereira regressou à SIC-N com o programa do "dinamite cerebral". Os trabalhos de um intelectual em luta contra a "asfixia democrática"...
No final, aconselhou a leitura de muitos jornais nas próximas semanas, porque vão acontecer muitas coisas nos jornais nas próximas semanas.
As fontes negras de Pacheco Pereira funcionam (ou será Pacheco fonte de si próprio?).

As fontes negras (1)

Afinal, as escutas recebidas pelo PGR chegaram em cerca de duas dezenas de CD, e não em 52 cassetes, conforme afirmara o ministro Santos Silva.
As fontes negras do ministro Santos Silva não funcionam.

A palavra aos leitores

António L. enviou para o CC um e-mail sobre uma peça do Telejornal de hoje da RTP. Também fiquei siderado: desde os “especialistas” ouvidos que só defendiam uma das posições à música tétrica a acompanhar as imagens, tenho a certeza de que Pacheco Pereira ou Cintra Torres darão 20 valores ao trabalho da equipa de Judite de Sousa. Eis a parte mais relevante do e-mail:
    Acabámos de assistir a mais uma brilhante peça jornalística do Telejornal da isenta e brilhante Judite de Sousa. Tratou-se de uma reconstituição do caso "Face Oculta" no que ao primeiro-ministro diz respeito. É interessante a palavra reconstituição, e imagina-se a imaginação dos jornalistas criando um cenário digno de um policial de terceira categoria. Lá estavam os "muito grande" planos, por vezes roçando o detalhe, a câmara entre o desfoque e a nitidez da focagem, como se tudo fosse o retrato de uma situação muito escondida, muito à socapa. Detalhe interessante, a banda sonora, música a dar o ambiente da suspeição. Ou seja, um registo que é também uma tentativa subliminar de deixar uma mensagem na cabeça de cada telespectador, ou seja a dúvida sobre o envolvimento do primeiro-ministro num processo obscuro. Mais uma tentativa, mais um caso. É isto o serviço público de televisão? Se é, não é diferente da informação tablóide. E uma pessoa pergunta-se que porcaria é então aquela?

Viagens na Minha Terra

Os cínicos e os cépticos

Tive, há uns tempos largos, uma breve troca de opiniões com o Paulo Pena, jornalista. Registei então a forma séria como me colocou uma questão que não vem agora ao caso. Nunca mais nos cruzámos, mas quero crer que ele não se importará que reproduza um texto que escreveu no Facebook e que se encontra transcrito no Léxico Familiar (via Arrastão). Faço minhas as palavras do Pedro Adão e Silva: “É bom saber que há quem pense o que o Paulo pensa, mas ainda mais importante é saber que há quem, sendo jornalista, tenha hoje a coragem de o escrever.

Eis o texto:
    Só para citar de memória, e deixando de fora os amendoins: Houve o caso Paulo Portas/Moderna; o caso Paulo Pedroso/Casa Pia; o caso Portucale; o caso Freeport; e, agora, as «certidões» da sucata. Tudo grandes investigações que envolviam políticos e não passaram no teste do algodão. Mal ou bem, estas grandes incursões da justiça no mundo da política foram, ou virão a ser, fiascos. Mas deixam um subtexto que substitui a verificação da veracidade ou falsidade das alegações: os políticos não se deixam apanhar, ou fazem leis para se «safar», ou condicionam os intrépidos magistrados.
O que são, nos media, estes casos? Investigações jornalísticas? Ou, em 90% dos casos, uma nova categoria de «reportagem sobre investigações», como lhes chamam Bill Kovach e Tom Rosenstiel, no imprescindível livro Os Elementos do Jornalismo (Porto Editora)?

    Veja-se a descrição americana, e compare-se com a realidade portuguesa: «Neste caso, a reportagem desenvolve-se a partir da descoberta ou fuga de informação de uma investigação oficial (…) O risco deste tipo de reportagem (…) é que o seu valor depende muito do rigor e do cepticismo do repórter envolvido. O repórter proporciona ao entrevistado um precioso espaço para a difusão de uma alegação ou insinuações, sem qualquer responsabilização pública. Isto não significa que a reportagem sobre investigações esteja, por inerência, errada. Mas está repleta de riscos, geralmente negligenciados. Nesta situação, os repórteres apenas costumam conhecer parte da investigação, em vez de serem responsáveis pela mesma. A hipótese de serem manipulados pelas fontes é elevada. Em vez de vigiar as instituições do poder, a imprensa fica vulnerável e torna-se num instrumento à mercê das mesmas.»

    Estes são os riscos. E basta ir à hemeroteca para constatar que andamos, todos, a ser muito pouco cépticos com um género particular de investigações: as investigações judiciais. Em Portugal há, e houve em momentos críticos, como os anos da Casa Pia, jornalistas a partilhar blogues com magistrados (convenientemente anónimos). Houve um PGR que nunca foi investigado por ter mandado a sua assessoria de imprensa divulgar notícias falsas. Houve um director-nacional da Judiciária que mentiu a um jornal, acusando Ferro Rodrigues, na altura líder do PS, de um crime horrendo que era falso, e continua, ainda hoje, a aplicar «justiça» num tribunal superior.

    Andamos mesmo a ser pouco cépticos. Tão pouco cépticos que já é altura de pararmos para pensar se não andaremos a ser coniventes e acéfalos.
Para mim, a separação de poderes dá a resposta ao dilema: os jornalistas devem investigar, e não fazer de caixa de ressonância; os investigadores judiciais devem ser avaliados pelos resultados das suas investigações e não pela comoção pública que geram as suas quase-descobertas; e os políticos devem ser julgados pelas suas acções e não pela sensação de verosimilhança que gostamos de associar entre uma discordância política e uma falha ética. Há políticos honestos de quem discordamos e políticos corruptos com quem concordamos.

    Foi Kapuscinski que disse que «os cínicos não servem para este ofício». E tem cada vez mais razão. A diferença entre cínicos e cépticos devia ser ensinada nas faculdades de jornalismo.

Prémios

Com indesculpável atraso, agradeço os seguintes prémios atribuídos ao CC:


Adiado o fim do mundo

O Produto Interno Bruto (PIB) português cresceu 0,9 por cento no terceiro trimestre face ao segundo, quando já tinha crescido 0,3 por cento também em cadeia e posto fim à recessão, definida tecnicamente pelos economistas como dois trimestres consecutivos de queda do produto.

No trimestre que passou, Portugal teve o terceiro maior crescimento na União Europeia. Aliás, o país está há quase três anos em convergência com a Europa dos 12 — aquela Europa com que nos cruzámos quando o país aderiu à CEE.

Como reagem os ressabiados que, dia após dia, anunciam o fim do mundo? Seguindo as escolhas da situacionista Lusa, lê-se que Campos e Cunha recomenda que “é preciso cautela” e César das Neves reconhece que “não são números fabulosos, mas são favoráveis”. Vê-los a meter a viola no saco é um indicador com muito maior significado do que os dados muito positivos divulgados pelo Eurostat.

Leituras